quarta-feira, 23 de setembro de 2009

SR. DOUTOR POSSO?


Enquanto ouvia a noticia da debandada de médicos para o privado, a minha filha tratava-me de um dó-dói, armada de pomada e penso:
-Deita mãe
-Sou doutora tá bem mãe?
Fazia-se uma abordagem daquelas bem esmiuçadas e prolongadas do sector publico e privado da saúde em Portugal. A das questões financeiras, dos ordenados dos Sr. doutores. A quem interesse - http://hospitalportugal.blog.com/3240118/

É sabido que há profissionais de saúde que em apenas uma tarde de trabalho no privado conseguem ganhar mais dinheiro do que num mês inteiro no hospital. Não me parece que isto possa ou deva acontecer.

É normal que se recompense quem trabalha, que se recompense quem trabalha melhor e acima de tudo, que se recompense quem é mais competente! Nesta caso trata-se de recompensar quem assiste gente com mais dinheiro?, doentes que têm mais dinheiro?

Não me querendo tornar repetitiva a saúde não pode ser cotada pela tabela do dinheiro, o rico e o pobre têm os mesmos direitos de assistência de saúde.
Se o rico pode escolher pagar mais tem esse direito. Agora será menos justo que o pobre, o desempregado, o Zé ninguém sejam tratados da mesma maneira não pagando nada? Não seria melhor que ninguém pagasse e assim o bom e o mau teria sempre a mesma cara?

Basta olhar para os movimentos migratórios para perceber como um medico ganha bem em Portugal. Enquanto que cada vez mais portugueses fogem para Espanha em busca de melhores salários, pelo contrário, são os médicos espanhóis que vêm para Portugal. A única explicação plausível para este movimento em contra-corrente, reside no facto de os salários dos médicos em Portugal serem maiores do que em Espanha. Como o rendimento médio espanhol é bastante mais alto que o português, tal é sintoma de que, em termos relativos, os salários dos nossos médicos são elevadíssimos.

Bem, enquanto isso esta médica só me quer tratar e salvar vidas como se de uma médica sem fronteiras se tratasse...O meu pensamento passeia-se até ao futuro e começo a imaginar-me a ir ao consultório da minha filha, a percorrer aqueles corredores hospitalares orgulhosa como um galo. Curioso que os corredores não são assim tão limpos e assépticos, são os de um hospital cheio de gente a precisar de assistência.
Agrada-me a ideia, como me agradava em criança quando um médico era um ser incorruptível e quase angelical.
- Vai passar mãe
- Agora trata a mim mãe...


Saúde,

Maria Roque

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Querida Joana


Hoje ao ver a entrevista da Joana Amaral Dias nos Gato, para mim ficaram postos de lado dois mitos; Que uma mulher bonita não consegue ser inteligente, e que nos partidos mais "à esquerda" as mulheres não são bonitas. Que o feminismo não é compativel com a vaidade. A Joana conseguiu desmistificar estes conceitos errados e sabe-se lá como, em tom de revolta tardia, fazer-me criar um blog.

Obrigada Joana por tudo aquilo que "tu sabes que eu sei que tu sabes" e por me fazeres criar um blog, desta feita que não é sobre o coração, as dores de alma, os desabafos, mas um pouco mais politizado e de pensamento livre. Chamei-lhe "O lado esquerdo do pensamento". Muita da matéria de que sou feita são as minhas ideias, desta vez vou soltar amarras e navegar neste mar revolto que são as opiniões.

Passo dias inteiros a repreender-me (e já não vivemos em ditadura), imagina o que seria se vivessemos, então aquela pessoa que se senta a trabalhar seria tudo menos eu. Estou rodeada de conservadores. Calo-me inumeras vezes para não me aborrecer e ao mesmo tempo para não ser mentirosa.
Há um indivíduo no trabalho que marca espectáculos tauromáticos com os sogros e com os pais e olha para as piadas dos Gato Fedorento como eu olho para os papeis do banco que chegam com os extractos de conta. É o ser com 30 e poucos anos que mais tem em comum com os 90 e poucos .... E mesmo assim não sei... A minha avózinha adora animais e seria incapaz de assistir a uma tourada. Só por dizer que quando vê series de humor dos Gato Fedorento parece que está a ver o National Geographic aos Domingos de Manhã. Entre ele e a minha vizinha da frente que tinha criadas quando era pequena e que a última vez que votou foi "para o Mário Soares". Não sei para onde me vire!

Estou seriamente convencida que hoje em dia já não é "fixe" ser-se de esquerda. Às vezes tenho a sensação que passou de moda, que os conceitos caducaram em certas cabeças, que as pessoas se resignaram, não querem parecer malucas ou pouco sérias. Lavaram-se as mãos, os problemas sociais deixaram de dizer respeito às vidinhas de cada um...

Eu sei bem de que lado faço parte. Vou ser sempre deste clube. Acreditarei sempre que há bens essencias e direitos fundamentais que ainda estão muito longe de ser conseguidos. Acreditarei sempre que a educação e a saúde (com condições) deve existir para todos - grátis sem excepção . Sei todos os dias quando me levanto o caminho que nunca segui e nunca seguirei. Sei bem que ás vezes me sinto num carrocel de loucos e de cegos. Tenho a certeza que os que trabalham comigo já sabem mal ou bem que sou de esquerda. Têm um certo medo de mim, respeitam-me, o que é fundamental à minha existência ali. Mas há uma coisa que não sabem, é que na verdade sou a mais livre de todos os que ali se sentam; livre de preconceitos, de dogmas, de religiões, de amizades interesseiras, almoços forçados e combinados, prestações ao banco para pagar os luxos que sustentam imagens de quem tem de se por em bicos de pés, lobbies. Sou livre disso tudo. Só sou mesmo presa ao meu ordenado.

A unica coisa que me prende ainda assim é o dinheiro que preciso de ganhar para viver. Aliás o que me prende é o amor; à minha familia, à minha filha, ao meu marido, aos meus amigos. Isso sim é que me prende -O amor.

Enfim, ficarão aqui alguns registos de ideias e sois bem-vindos!
Maria Roque